Coluna Só Para Pensar: “É preciso ser 100%?”

Você se lembra da passagem bíblica do jovem rico? Vamos relembrá-la.

Matheus nos conta que o moço rico chegou a Jesus e disse:

O que devo fazer para alcançar a vida eterna?”

Ao que Jesus respondeu: “Segue os mandamentos”.

O jovem argumentou: “Faço isso desde a minha mocidade, o que me falta?”.

Jesus, então, respondeu: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que é teu, dá aos pobres e siga-me

Veja bem, são duas coisas diferentes e muito importantes que ocorrem neste trecho. Uma é ganhar a vida eterna apenas, a outra é ganhar a vida eterna sendo perfeito.

Isto nos coloca frente a frente com o dilema de sermos 100% em tudo, isentos de erros, um ser divino na Terra. Tarefa para poucos iluminados, afinal somos humanos e falíveis.

Na passagem evangélica, para ganhar o céu, bastava seguir os mandamentos, os quais não são freios impositivos, sabemos disso, afinal sete deles dizem “não”, assim basta não fazer. Na lei judaica, os mandamentos existem desde os tempos de Moisés e são exercícios de construção pessoal e social.

Jesus diz isso: “Siga os mandamentos” e o moço rico responde que já faz isso desde pequeno. É neste instante que Jesus separa o céu dos comuns do céu dos perfeitos e sentencia: “Se queres ser perfeito …

Fica claro, portanto, que o céu não foi feito apenas para os perfeitos, tanto assim que o evangelista João, no texto do Apocalipse, ao chegar junto a Deus no Paraíso, afirma que lá dava para ver uma “multidão que não se podia contar”.

Veja “não se podia contar”, isto é, o número era maior do que a capacidade de contar que o ser humano possuía então. Na verdade, o céu está repleto, muito mais repleto não é para poucos, como dizem líderes religiosos para nos amedrontar, impingir duras penas, e muitas oferendas…

O céu foi feito para todos aqueles que dão o melhor de si mesmos nesta estrada da vida, não de uma vida apenas, mas na existência, que é mais do que viver apenas uma vez.

Está nos Evangelhos, como lemos em João, 3:1-18 “Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo“, e de novo, e de novo, muitas são as vidas.

Por esta razão, buscar o aprimoramento é muito importante. E como fazemos isso? Os japoneses têm uma palavra para o aprimoramento contínuo “Kaizen”. O que significa?

É um processo através do qual você busca ser melhor, fazer melhor as coisas a cada dia, toda vez que for realizar suas tarefas no cotidiano. Isto é buscar o aprimoramento de verdade, sem parar, por mais banal que seja a ação a ser praticada.

Não basta ser o que sou, ou fazer o que já fiz: preciso ser melhor, realizar melhor, porque assim fazendo estarei melhorando a mim mesmo e o mundo à minha volta.

Por esta razão, não preciso ser 100% perfeito, mas fazer 100% das minhas possibilidades de perfeição.

Costuma-se dizer que uma pessoa cumpre sua missão quando executa a parte que lhe cabe no cotidiano. Fazer cotidianamente o seu dia-a-dia ser mais intenso, mais rico, mais construtivo.

É como ser um anjo da guarda nas mínimas ações, preservando a mim mesmo, os outros e a terra, porque esta imensa mãe que nos abriga, nosso planeta, também precisa de você.

E quando você assumir este comportamento, incorporar esta vontade de aprimoramento como norma de vida, como parte de você, sua consciência vai se expandir, você poderá dizer que foi mais além, caminhou para ser 100%. Não precisa chegar lá, basta caminhar nesta direção.

Aliás, esta é nossa função. Como criaturas, não somos e nem poderemos ser perfeitos como o Criador. Ele é absoluto, nós somos relativos. Assim, o máximo que podemos ser é relativamente perfeitos, nada mais que isso.

O número 100% é um número absoluto, ele não se aplica a nós, mas exercer 100% nossas potencialidades para conquistar o que é possível em nós mesmos já basta.

Nada se aplica de maneira tão magistral sobre este tema quanto esta fala de Chico Xavier:

Sei o que devo ser e ainda não sou, mas rendo graças a Deus por estar trabalhando, embora lentamente, por dentro de mim próprio, para chegar, um dia, a ser o que devo ser”.

Isto é, um ser humano falível, mas que deu 100% de si mesmo, a fim de evoluir frente aos olhos de Deus.

Sérgio Motti Trombelli é professor universitário, pós-graduado em comunicação e palestrante

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