Coluna: O Berço do Churrasco Brasileiro – A Tradição do Fogo de ChãoFoto: Box Lab/Shutterstock

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Coluna: O Berço do Churrasco Brasileiro – A Tradição do Fogo de Chão

Fala galera louca por churrasco, eu sou o Paizão e este aqui é sim o nosso querido Canal Barbaecue, diferente do YouTube na sua forma de falar com vocês, porém com a mesma essência e paixão, continuamos loucos por churrasco.

E por falar em churrasco, hoje gostaria de falar sobre o fogo de chão, o berço do nosso churrasco. O dicionário define “churrasco” como carne assada, geralmente bovina, preparada sem temperos e cozida na grelha ou no espeto. Mas essa definição técnica está longe de capturar a alma do churrasco brasileiro. Por trás dessa prática gastronômica está
uma história secular, entrelaçada com a geografia, os costumes e a cultura de um povo que encontrou no fogo um elo com sua identidade.

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Segundo o jornalista e historiador Eduardo Bueno, “o churrasco, como o conhecemos hoje, nasceu no Pampa há mais de 400 anos”. Essa afirmação encontra respaldo em registros históricos que apontam para a introdução do gado bovino no Brasil em 1531, trazido por Martim Afonso de Souza.

Foto: RHJPhtotos/Shutterstock

A princípio, os animais eram valorizados pela força de trabalho e pelo couro. Com o tempo, tornaram-se também uma importante fonte de alimento, especialmente no Sul do país, onde a criação extensiva foi facilitada pelas vastas planícies cobertas de pastagens naturais.

O Pampa, que se estende pelo Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina proporcionava o cenário ideal para o crescimento do rebanho bovino. Com clima favorável, abundância de água e ausência de predadores naturais, a região foi tomada por milhões de cabeças de gado.

Por volta de 1650, os povos indígenas da região, como os charruas, passaram a consumir a carne vermelha de forma recorrente. Inicialmente, a técnica era rudimentar: pedaços de carne eram lançados diretamente sobre o fogo aceso no chão.

Foi com os guaranis que esse preparo começou a ganhar sofisticação. Eles passaram a usar estacas de madeira para assar a carne inclinada ao fogo, ou a envolvê-la em cinzas para neutralizar o gosto metálico do sangue. Essa técnica ancestral, invisível aos olhos dos colonos brancos por muito tempo, seria mais tarde incorporada pelos gaúchos, por volta do século XVIII, moldando o que hoje entendemos como churrasco brasileiro.

Com o passar do tempo, a tradição se expandiu, agregando acompanhamentos como legumes, pães e frutas, mas sem perder seu coração: o fogo de chão. Mais do que um método de cocção, ele representa um símbolo de pertencimento, uma ponte entre o passado indígena e o presente gaúcho, entre a rusticidade da terra e a sofisticação do paladar.

No fogo de chão, a carne é assada sobre brasas cuidadosamente preparadas diretamente no solo. Esse modo de preparo, legado dos povos originários da América do Sul, carrega não apenas técnica, mas também simbolismo. O fogo era, para esses povos, mais do que uma fonte de calor — era parte dos rituais, um elo espiritual. Com a chegada dos colonizadores europeus, a tradição ganhou novas camadas: manejo do gado, valorização dos cortes e do sabor natural da carne.

Hoje, tanto no Brasil quanto na Argentina, o fogo de chão é sinônimo de confraternização. No Sul do Brasil, o churrasco gaúcho com cortes simples e generosas porções de sal grosso, é celebrado como uma liturgia coletiva. Já na Argentina, os “asados” cumprem função semelhante: o fogo como centro da vida social, onde se compartilham alimentos, memórias e afetos.

Foto: DR Moura/Shutterstock

O ritual começa muito antes da carne atingir o ponto ideal. A escolha do local, a seleção da lenha eucalipto ou madeiras frutíferas como goiabeira e laranjeira, e a montagem cuidadosa das brasas são parte essencial da experiência. Cada tipo de madeira imprime nuances únicas ao sabor da carne, tornando o processo quase alquímico.

A preparação é direta: cortes generosos recebem uma camada de sal grosso ou, em algumas versões mais elaboradas, marinadas com vinho, cerveja e ervas, pinceladas durante o cozimento. As peças são dispostas em espetos ou varais de metal e madeira, em diferentes distâncias do fogo, para garantir uma cocção lenta e uniforme, ideal para
transformar até os cortes mais rijos em iguarias suculentas.

O espetáculo vai além do paladar. O som da lenha estalando, o aroma da fumaça que se mistura à gordura derretendo, a visão das chamas dançando ao vento e o toque do calor irradiando do solo: tudo isso cria uma experiência quase sinestésica. A reação de Maillard, responsável pela crosta dourada e aromática da carne, acontece na interação entre altas temperaturas e proteínas, entregando um sabor inconfundível.

As ferramentas são simples, mas indispensáveis: pás para mover brasas, facas afiadas para cortes precisos e robustas tábuas de madeira que servem tanto à preparação quanto à apresentação. Cada detalhe é pensado com zelo, do ponto da costela que leva até oito horas para ficar pronta à delicadeza do abacaxi assado.

Mais do que uma refeição, o churrasco de fogo de chão é um rito de pertencimento. Famílias e amigos se reúnem ao redor das brasas como nossos ancestrais, celebrando o tempo e o convívio. Em uma era de pressa e distrações digitais, essa tradição ressurge como um lembrete essencial: comer é também um ato de conexão — com a terra, com as pessoas e com nossas origens.

À medida que cresce o interesse por modos de vida mais sustentáveis e conscientes, práticas como o fogo de chão voltam ao centro das atenções, não como uma nostalgia, mas como um caminho possível. Porque, no fim, não se trata apenas de assar carne. Trata-se de cultivar memórias, nutrir vínculos e manter acesas as brasas da nossa identidade.

Nos vemos na próxima edição, com mais fumaça boa e carne ao ponto, pra menos pelo menos! Acompanhe mais nas nossas redes sociais no Youtube e Instagram!

Rodrigo ‘Paizão/Barbaecue’
é jornalista e criador de conteúdo digital com mais de 191mil inscritos em seu canal no youtube e mais de 70 mil seguidores em suas redes sociais.

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