
Da filosofia, iniciada e solidificada na antiga Grécia, é que derivam os ensinamentos sobre Deus, Ética, Ciência, Lógica, enfim, toda uma gama de conhecimentos dos quais o ser humano se serviu, e vem se servindo, para entender a si mesmo e o mundo à sua volta.
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Neste emaranhado de pensamentos, a Política faz parte, estando presente na preocupação de todos os filósofos desde aquele tempo até hoje. Mas, se a grandeza da política foi tamanha no passado a ponto dela se tornar tema da Filosofia para filósofos desde o séc. VI a.C., hoje o que nos sobra é uma vaga lembrança daquilo que foi pensado e aceito, para darmos de cara com a dura realidade do que ela é hoje.
“O ser humano é um animal político”, já afirmava Aristóteles. E não tem outra forma de ser, afinal vivemos em sociedade e o outro está sujeito a tudo aquilo que qualquer um de nós também está. Assim, a política tem caminhado entre altos e baixos, jamais sendo de fato um modelo de conduta, justamente porque ela é uma ondulação entre o bem e o mal, entre a ética e a corrupção, entre a busca do coletivo e o interesse individual, e assim poderíamos prosseguir por longas páginas.
Contudo, vale a pena tentar entendê-la, já que ela nos envolve, e mais que isso, nos determina. Ao longo do tempo, a política conseguiu construir um mundo à parte da realidade. Através de engenhosas artimanhas, narrativas falseadas, imposições legais, ela acabou formando um perfil próprio que lhe permite entender a vida sob uma ótica míope, capaz de “tranquilizar seus actantes” (seus agentes), de modo que eles sequer percebam que destoam do todo
nacional.
Por isso, a realidade na política é outra. Aqui fora, traição é altamente condenável e, lá dentro, é quase uma norma (que se vai fazer, lá dentro é assim,…); tratar dos assuntos internos tem prioridade sobre o atendimento das necessidades da população (que se vai fazer, lá dentro é assim…); verbas para obras são deixadas de lado para atender o orçamento impositivo, privilegiando parlamentares (que se vai fazer, lá dentro é assim …) , etc., etc., etc.
A política é uma bolha impenetrável, com uma realidade própria, ética própria, conceitos próprios e uma personalidade totalmente diferente dos padrões normais. Lá dentro tudo é possível, afinal são os senhores parlamentares que fazem as leis, inclusive para si mesmos, e jamais farão qualquer que possa limitar ou retirar o seu poder.
Assim, por mais de uma vez já dissemos que a política cria o sistema, e o sistema garante a política. Em outras palavras, uma precisa de outro e o outro precisa de uma. Com isso, nada muda, o que é ruim; e o desesperador, é que nunca vai se mudar isso. O que é muito pior.
Os desmandos ocorrem sem que a sociedade consiga pará-los, mudá-los ou minimizá-los. Mesmo se escolhendo com rigor o voto, a escolha pode não valer muito, afinal, num grupo de pessoas que, praticamente, só pensam em si mesmos, aqueles poucos, que pensam no povo, atrapalham.
Os últimos episódios que estamos vivenciando politicamente, são as “indecisões” da Câmara e o Senado sobre as questões da PEC da Blindagem (já solucionada), ou a PEC da Dosimetria, ou a PEC da Anistia.
E tudo isso ocorre para contemplar o interesse pessoal dos membros do próprio poder Legislativo. O que significa dizer que as soluções alcançadas ao final serão aquelas daqueles que criam as leis. Assim viver é fácil, porque o final será sempre o consenso de interesses.
A filosofia de Maquiavel, defendendo que “o fim justifica os meios” caiu como uma luva na cartilha da política nacional brasileira. Creio que a obra do filósofo latino, “O Príncipe”, é livro de cabeceira daqueles que comandam politicamente este “patropi”.
Se você está pensando em uma maneira de solucionar isso, esqueça. Enquanto for esta a filosofia do regime político que temos, tudo ficará como está, e nossas costas continuarão arcando com o peso de tudo, principalmente do progresso do país e das mordomias que apenas uns poucos possuem.
Assim, a finalidade desta matéria, já que não dá para mudar, é fazer o leitor/leitora pensar e se conscientizar deste lamentável estado de coisas, profundamente injusto para uns, e extremamente “generoso” para outros.
Sabe-se lá se o tempo poderá trazer ideias novas com pessoas novas e aí, talvez tudo, ou pelo um pouco, mude a nosso favor. Afinal, somos os “expectadores úteis do processo democrático”.
Sérgio Motti Trombelli é professor universitário e palestrante kardecista cristão.


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