Coluna: Um alerta que começa na curiosidade

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Coluna: Um alerta que começa na curiosidade

Nota pessoal: O aniversário e o porquê das coisas

Nesta semana minha casa ficou em festa. Minha linda filha, Heloisa, celebra seus 22 anos. Para quem a conhece, sabe que desde cedo ela tem uma paixão incessante pelos “porquês” das coisas. Esse interesse inato, junto com o sonho de ser farmacêutica a levou a trilhar um caminho que, hoje no último ano da faculdade, resulta em um trabalho de Iniciação Científica que pode salvar vidas.

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A beleza dessa pesquisa não está só nos dados, mas na origem: na observação atenta de uma amiga. Heloisa notou que amigos, que já fumavam e passaram a usar antidepressivos (inibidores seletivos de recaptação de serotonina, ou ISRSs), começaram a ter reações estranhas: suor excessivo, batimentos cardíacos acelerados e tremores.

Intuitivamente, ela buscou se haveria uma interação medicamentosa entre o cigarro e os inibidores. A resposta que ela encontrou, e que deu origem ao seu estudo, é um urgente alerta para a saúde pública e para a psiquiatria.

A pesquisa de Heloisa — intitulada “O uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) em tabagistas e os riscos da interação com os inibidores da MAO presentes na fumaça do tabaco” — foi abraçada e incentivada pelo professor Válter Garcia Santos, da Universidade Santa Cecília. E eu como uma mãe coruja, mas também,
como uma jornalista atenta, trago o assunto para dividir com nossos leitores.

Foto: Tatiana Macedo

Ritmo acelerado e a triste conexão

Vivemos em um tempo de “cognição em tempo real”, onde o ritmo acelerado de informações e a ansiedade do mundo moderno elevam o número de pessoas buscando apoio na psiquiatria e na farmacologia.

Essa busca se reflete em dados oficiais que apontam para o aumento do uso de medicamentos para saúde mental no Brasil, que cresceu 12,4% entre adultos brasileiros nos últimos anos. Também apontam para o estudo do INCA de que a associação entre o cigarro e comorbidades psiquiátricas, como a depressão, é bem estreita.

O cérebro como uma caixa d´água

Para entender o risco que Heloisa investiga, pense no nosso cérebro como uma caixa d'água que armazena neurotransmissores, como a serotonina – a famosa “substância do bem-estar”.

Os antidepressivos mais comuns agem como uma bomba de reciclagem, impedindo que a serotonina (que seria a água na caixa) seja drenada rapidamente após ser usada. Com isso, eles aumentam o nível de serotonina na “caixa”.

A MAO é a enzima natural que age como o ralo da caixa, “destruindo” o excesso de serotonina para manter o nível seguro. A pesquisa mostra que a fumaça do tabaco contém substâncias que são Inibidores da MAO, ou seja, elas agem entupindo o ralo. Isso impede que o excesso de serotonina seja drenado.

Aí está o perigo: se a pessoa está tomando o antidepressivo (aumentando o nível) e está fumando (entupindo o ralo da MAO), o acúmulo de serotonina é excessivo e rápido, resultando em um “transbordamento” cerebral: a Síndrome
Serotoninérgica.

Foto: Ordem Farmacêuticos

Que isso gente? Síndrome Serotoninérgica?

Ela é uma reação adversa rara, mas potencialmente fatal, caracterizada por um aumento exagerado da atividade da serotonina. Os sintomas observados pela Heloisa — sudorese, taquicardia (batimentos acelerados) e tremores — são
clássicos de uma hiperatividade do sistema nervoso autônomo e neuromuscular.

Estudos apontam que, dos casos graves de toxicidade por esses antidepressivos, os mais severos foram causados pelo uso conjunto de agentes que aumentam os níveis de serotonina, reforçando o risco investigado pela Heloisa.

O impacto desse estudo, ainda no começo

Foto: Lecturio

A iniciação da pesquisa aconteceu com uma revisão integrativa de literatura. Se confirmada por estudos clínicos futuros, ela poderá munir os psiquiatras com uma ferramenta de decisão importantíssima: prescrever um medicamento mais seguro, que atinja o mesmo fim terapêutico, mas que não interaja de forma perigosa com os componentes da fumaça do tabaco.

O estudo foi apresentado no Congresso Brasileiro de Iniciação Científica e no 23º Congresso Farmacêutico de são Paulo.

Esta é apenas a iniciação científica de uma menina que, aos 22 anos, já contribui para que a ciência da saúde possa tocar a vida real das pessoas com mais segurança e cuidado.

Eu estou orgulhosa e, é claro, desejo sucesso para essa futura farmacêutica.

Parabéns, Heloisa!

Tatiana Macedo é jornalista.

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