Coluna: A Brasa que Nunca se Apaga – Ao Meu Pai Jesus, Através do Churrasco, sempre! 

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Coluna: A Brasa que Nunca se Apaga – Ao Meu Pai Jesus, Através do Churrasco, sempre! 

Há um mês, o mundo perdeu um pouco do seu brilho para mim. Há um mês, meu pai partiu, deixando um vazio imenso e a saudade que insiste em apertar o peito.

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Mas, em meio à dor da ausência, há também a gratidão pelas memórias, pelos ensinamentos e, acima de tudo, pela chama que ele acendeu em minha vida, uma chama que, curiosamente, sempre esteve ligada ao calor do fogo e ao aroma inconfundível de um bom churrasco. 

Para muitos, o churrasco é apenas uma refeição, um evento social. Para nós, era um ritual, uma linguagem silenciosa que falava de união e de celebração.

Desde muito cedo, o som da carne chiando na grelha e o cheiro da fumaça se misturavam às minhas primeiras lembranças, sempre com a figura imponente e carinhosa do meu pai no centro de tudo, muita viola, cerveja gelada, família e amigos.

Ele não era apenas o churrasqueiro, ele era o maestro de momentos inesquecíveis, o guardião de tradições que hoje, mais do que nunca, se tornam preciosas relíquias de um passado que se recusa a ser apenas passado. 

Lembro-me como se fosse hoje dos dias no escritório, nosso cantinho, carinhosamente apelidado assim, logo depois do final de 2004, quando finalmente decidi me juntar aos seus sonhos.

Eram tempos conturbados e difíceis para a imobiliária que passava por uma reformulação, mas que nos aproximaram demais, lembro-me das churrasqueiras de tambor, dos churrascos inusitados e de muitas promessas, eu tinha 20 e poucos anos e morávamos só nós dois.

Recordo-me que neste ano ele havia me prometido que faríamos um grande churrasco assim que desse, e assim foi, em 2005 no meu aniversário, foram 11 dias de churrasqueira acesa, entre almoços e jantares, às vezes alternando os amigos, os cortes e as roupas, não deixávamos nosso bom e velho churrasco de lado.

Todas as memórias descritas até agora, são mais recentes, mas não me recordo de nenhum aniversário de criança meu ou de qualquer familiar sem churrasco por causa dele, havia as coxinhas sim, os enfeites de mesa, mas o churrasco chegava a ser quase tão especial quanto o aniversariante, ou a própria festa. 

Nossos churrascos tiveram fases, assim como nossa trajetória, muitos deles repletos de amigos e pessoas importantes da sociedade, outros com somente nós dois, uns comemorando grandes vitórias e conquistas, outros servindo como consolo nos momentos mais conturbados, mas em nenhum destes dois momentos, deixamos de fazer nossa boa e velha fraldinha, pra ele bem passada e pra mim, mal.

Eu quando menino era muito curioso e fascinado, observava cada movimento, absorvendo cada detalhe. Ele me ensinou que o churrasco não era apenas sobre assar carne, mas sobre paciência, sobre a arte de compartilhar, juntar pessoas ao redor da churrasqueira e viver ótimos momentos juntos.

O churrasco se tornou um elo entre nós, um espaço de confidências, de risadas e de silêncios confortáveis. Era ali, em volta da churrasqueira, que as conversas mais importantes aconteciam, que os conselhos eram dados e que os laços se fortaleciam. Não é à toa que o churrasco se tornou parte tão intrínseca da minha vida profissional.

Primeiro a “Casa da Fazenda”, meu primeiro projeto aqui na cidade, uma empresa familiar que falava sobre cultura caipira e churrasco. Mais tarde, o canal no YouTube, os programas de TV, os campeonatos, os festivais, as experiências na Europa, tudo isso tem a raiz naqueles dias, naquelas lições de paciência e paixão.

Cada brasa que acendo hoje é um eco da chama que meu pai acendeu em mim. Cada sorriso que vejo no rosto das pessoas que desfrutam de um churrasco que preparei é um reflexo do prazer que ele sentia ao alimentar e unir as pessoas. 

As reuniões em torno da churrasqueira eram mais do que simples refeições, eram verdadeiros encontros de almas. Família, amigos, vizinhos, políticos, violeiros, todos eram sempre bem-vindos. Meu pai tinha o dom de criar um ambiente de alegria e camaradagem, onde as preocupações do dia a dia se dissipavam no ar, levadas pela fumaça e o som da viola caipira. 

Ele era o centro das atenções, contando histórias, fazendo piadas e falando sobre os causos, e sempre garantindo que ninguém ficasse com o prato vazio ou o copo seco. Era um espetáculo à parte vê-lo ambientar-se no churrasco, era como se fosse uma simbiose perfeita, como se fizessem parte e precisassem um do outro. 

Com o tempo ele se cansou, o tempo foi passando, novos churrasqueiros assumiram a arte do fogo em casa, Panchinho o mais antigo e amigo, Saquetim em São Paulo, Cosme, aqui no Guarujá, e não sei mais quantos amigos, até que minha vez chegasse.

Hoje, um mês após sua partida, a churrasqueira parece um pouco mais vazia, a cerveja um pouco mais quente, a viola um pouco mais desafinada e o silêncio um pouco mais profundo. Mas a brasa, ah, essa jamais se apagará. Ela vive em cada pedaço de carne que coloco na grelha e no espeto, em cada fumaça que sobe aos céus, em cada sorriso que compartilho com amigos e familiares.

Ela vive nas memórias que me aquecem a alma e nos ensinamentos que me guiam. Meu pai se foi, mas seu legado, sua paixão pelo churrasco e, acima de tudo, seu amor, permanecem vivos, acesos e eternos, como a brasa que nunca se apaga. E é com essa chama que continuarei a honrá-lo, um churrasco de cada vez, juntos dos nossos. 

Que esta homenagem seja um abraço apertado em todos aqueles que, como eu, carregam no peito a saudade de alguém especial. Que seja também um lembrete de que o amor verdadeiro não se apaga com a morte, mas se transforma em chama eterna, aquecendo nossos corações e iluminando nossos caminhos.

Meu pai, onde quer que esteja, certamente sorri ao ver que a tradição continua, que a chama que ele acendeu ainda queima forte, e que cada churrasco que faço é uma oração de gratidão por tudo que ele me ensinou.

“Te amo meu Pai, até logo, Você tá fazendo muita falta!”

Rodrigo ‘Paizão/Barbaecue’
é jornalista e criador de conteúdo digital com mais de 191mil inscritos em seu canal no youtube e mais de 70 mil seguidores em suas redes sociais.

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