
Leitora, leitor amigos, há momentos que nos pesam. Principalmente, nas idades mais avanças, e então, o que nos sobra é um lamento sentido, doído em verdade, que não cabe numa matéria de jornal.
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Cabe num texto melancólico, e creiam todos estarão sujeitos a essa melancolia. Por isso, sintam-se envolvidos e pensem nisso.
Quando findar o tempo
Haverá um tempo em que você não vai mais estar.
Sua poltrona estará vazia,
não mais estará em frente à TV,
seus livros deixarão de ser folheados,
seus textos ficarão sem ajustes, continuação,
sem o primeiro leitor: você!
Haverá um tempo em que não estará mais no
volante do carro, conduzindo a família
como um capitão que conduz o navio pelos mares da vida.
Haverá um tempo em que os seus aniversários não serão mais
contados pela presença, mas pela sua ausência de não mais estar.
As festas não terão a sua comida predileta, nem o vinho,
nem seus presentes em família porque você não mais vai estar.
Haverá um tempo em que, com você, eles todos é que não estarão mais,
porque você passou enquanto eles irão permanecer.
Na estrada da existência,
você estará longe, num espaço/tempo em que não se sabe qual é.
Por isso, não existirão telefonemas ou e-mails, ou cartas,
pois mesmo que se saiba o que dizer e a quem enviar
não haverá endereço conhecido.
As rugas da sua companheira não terão mais o seu testemunho,
nem a cumplicidade comum, nem o calor dos corpos,
o beijo dos filhos, dos netos,
o sorriso de todos não terá a sua alegria,
as vitórias do time preferido não serão comemoradas em conjunto,
e nem mesmo as lágrimas serão choradas a todas faces,
porque faltará a sua face.
A história daqueles a quem ama ficará sem o seu personagem,
mas o palco não estará vazio, porque a vida não pode parar.
Suas sementes desabrocharam e estarão gerando novas sementes
as quais você nunca vai poder ajudar a regar, a cuidar
e por isso mesmo nunca poderá ver crescer,
ou atuar novamente com elas no teatro da vida
porque você não mais fará parte do elenco.
Então, a vida seguirá sem você, mas não é você
quem fará falta a todos,
e sim todos é que farão falta a você,
não estarão mais juntos ao seu corpo agora etéreo e sutil,
em outra morada dentre as tantas casas do pai.
E por fim, mesmo que a vida flua, você ficará congelado,
sem a forma humana, física, presente.
Para a vida que ficou, você será a imagem de fotos, filmes,
ou apenas uma escrita e terá a forma de um nome,
pronunciado nos dias em que se lembrarem de você
e neste instante, num átimo de tempo em que seu nome for dito,
você viverá novamente,
você irá outra vez estar, apenas em lembrança,
vivendo o tempo da primeira à última sílaba de seu nome,
que quando findo, novamente desaparecerá no silêncio de você,
porque realmente esta não será mais a sua vida,
seu momento, seu espaço, mas daqueles que ficaram.
Sim, haverá um tempo em que você não mais vai estar…
aqui, mas lá, junto dos que já foram,
esperando pelos que virão.
Sérgio Motti Trombelli
é professor universitário e palestrante cristão.


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