
Podem perguntar por aí. A coisa que um articulista mais detesta é deixar de lado o seu espaço, neste caso, semanal.
Contudo, há momentos em que isto é uma obrigação. Já fiz isso aqui na coluna para citações, textos menos longos, mas nunca para uma matéria inteira de outro escritor. Mas hoje, acho que merecemos (todos nós) este texto que segue abaixo.
»» Leia também: Coluna: De vez em quando, a melancolia
“O Papa e o Martelo
(crônica para os que ainda acreditam em reformas)
Morre Francisco.
Francisco não calçava sapatos de rubi. Preferia os de caminhada —gastos nas calçadas de Buenos Aires.
Se o Vaticano é castelo, ele era um síndico inquieto com marreta na mão e Evangelho no bolso. Tem gente que o chama de comunista. Outros, de liberal.
Ele lembra que cuidar dos pobres é o centro do evangelho. E até hoje se confunde isso com comunismo. Ahhh se fosse verdade, né? Se Comunismo cuidasse dos pobres!!!
Pra mim ele parecia mesmo era com um avô lúcido tentando ensinar misericórdia a uma geração que reza no Google.
Quando falou dos gays, disseram: “mudou a doutrina!”. Mas tudo que fez foi lembrar que Jesus nunca pediu RG de ninguém.
Disseram o mesmo quando recebeu Lula. Ora… pelo mesmo motivo. Jesus nunca foi tribunal. Jesus é amor e isso ainda hoje é incompreensível. A cruz de Francisco não era de ouro. Foi o peso simbólico de dois mil anos de fé, culpa e contradição.
E ele seguiu passo a passo, entre santos de pedra e pecadores de carne. Reformar a Igreja? É como pintar a Capela Sistina com um rolinho de parede. Mas talvez o milagre de Francisco seria outro: transformar um império em comunidade. E isso, sim, merecia canonização em vida. Mas ainda há quem diga que foi um herege dentro da igreja.
Se um dia a História o julgar herege, que seja por ter acreditado demais no poder revolucionário do amor — esse sim, o mais subversivo dos sacramentos”. Ronaldo Krieger. Apenas para dar uma contribuição.
Vale ressaltar que se a suntuosidade da igreja sempre fez questão de se enterrar os papas na Basílica de São Pedro, nas chamadas Grutas do Vaticano, debaixo do altar principal, este Papa quebra a tradição. Francisco decidiu escolher seu repouso em um túmulo simples na Basílica de Santa Maria Maior em Roma, por sua devoção à Virgem Maria.
E mais, em outros túmulos, é comum encontrar o nome do Papa em Latim, o período do pontificado, a indicação do cargo e, por vezes, citações bíblicas ou frases religiosas que refletem a sua fé e vida. Mas Francisco pediu que em seu túmulo ficasse escrito apenas Franciscus (em Latim).
A simplicidade dele em vida se eterniza na morte e na lembrança de todos nós. Tomara que este estilo de ser, influencie outros papas, de modo que o Cristianismo Católico possa voltar de vez àquilo que foi e que Jesus sempre desejou: uma fé com dignidade, ética para todas as classes sociais.
Sérgio Motti Trombelli é professor universitário e palestrante kardecista cristão.


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