Coluna: Hoje é Carnaval!!!Foto: Freepik

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Coluna: Hoje é Carnaval!!!

O título desta matéria é como se fosse uma senha semelhante ao famoso “Abre-te Sésamo” da história, universalmente conhecida de Ali Baba e os 40 ladrões.

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Neste caso, entretanto, o que se abre não é uma caverna com tesouros e sim uma espécie de mundo paralelo onde quem entra acaba vivendo numa profunda alegria nesta festa popular, provavelmente a maior do mundo.

É como nela se alcançasse a utopia da felicidade, da igualdade, do estado nirvânico. A música “Máscara Negra” de Zé Kéti tem muito disso, mas para além dela, há na mente do brasileiro esta vontade de liberdade, simplesmente porque é Carnaval.

Seus versos iniciais (Tanto riso / oh, quanta alegria / mais de mil palhaços no salão…) são inesquecíveis, e embora tenha vencido o carnaval de 1967, há mais de 50 anos, consolidou-se como um dos maiores clássicos da história do carnaval brasileiro, cantada até hoje nos bailes de salão durante o carnaval.

Foi e é sucesso, mesmo tendo invertido a sorte de Pierrot e Arlequim, que difere da história original, contida na Commedia dell'Arte italiana do século XVI.

Vamos a ela:

Tanto riso, Ó, quanta alegria! Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando / Pelo amor da Colombina
No meio da multidão /Foi bom te ver outra vez
Está fazendo um ano / Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele Pierrot / Que te abraçou / Que te beijou, meu amor
Na mesma máscara negra / Que esconde teu rosto
Eu quero matar a saudade / Vou beijar-te agora
Não me leve a mal / Hoje é Carnaval

E esse é o mantra, a senha, “Hoje é Carnaval”, e por conta disso tudo é possível. O triângulo amoroso de Arlequim, Pierrot e Colombina ganha forma humana neste espetáculo. E por quê? Porque no palco da alegria, os personagens são as pessoas do povo que representam sua própria história, as quais acabam vivendo um enredo – o seu – assim
personagem e plateia se tornam um só.

Há uma licenciosidade onde o amor pode aflorar, ou desaparecer. Cada mulher é Colombina, sendo disputada por Pierrots e Arlequins em meio a risos e alegrias, como diz a canção e, como acontece em cada Carnaval, quando alguém chora por Colombina em busca da felicidade que todos almejam alcançar.

Até mesmo a culpa por tudo o que pode acontecer, ganha sua desculpa numa simples frase que justifica qualquer erro, qualquer investida equivocada, afinal “hoje é Carnaval”. Os “mil palhaços no salão”, são todos aqueles que se transformam dentro de suas palhaçadas ao avistar a mascarada, a qual não precisa ser a mesma.

E a canção afirma isso, porque é “na máscara negra que envolve seu rosto” ( qual rosto? ) é que o folião vai matar a saudade daquele beijo, cujas bocas acabam se encontrando, não importa de quem sejam, repetem o gesto de outro carnaval, ou de tantos outros carnavais .

E mais uma vez, a senha que tudo permite se repete, por isso, “não me leve a mal, hoje é carnaval”.

Por esta razão, a música de Zé Kéti é antológica. Há muito de Freud nisso tudo. O Carnaval é uma imensa catarse do ser humano, o grande escape dos recalques, das decepções, frustrações, ou até mesmo o bálsamo da dor vivida durante um ano, que deságua na alegria carnavalesca, quando um personagem humano, por vivenciar tudo isso, ganha sua parte naquele enredo de plena magia.

Assim, é como se houvesse um equilíbrio, uma compensação, quando a vida daquele personagem zerasse seus erros na permissividade de uma senha, “Hoje é Carnaval”, e o ser humano acabasse, finalmente, empatando as suas misérias e sofrimentos na contabilidade da vida.

Desta forma, o simbólico, o mitológico se repete no Carnaval, também chamado de os Festejos de Momo. Para a mitologia dos gregos, Momo é o filho do Sono e da Noite, o deus da festividade. Por ser uma figura alegre, descontraída, zombeteira, e por ter o hábito de ridicularizar os demais deuses, Momo foi expulso do Olimpo e despachado para a Terra.

Daí, em cada fevereiro, na descontração, na zombaria até de si mesmo e do outro, o folião ridiculariza a vida, às vezes o amor, a dor, e, destemido, faz tudo acontecer como uma imensa festa da magia, onde cada qual se torna o senhor da sua própria vida, coisa que poucos conseguem ser.

Afinal, naqueles quatro dias, qualquer mortal pode ter e sentir o paraíso em Terra, porque ele possui a senha, basta dizer “Hoje é Carnaval!

Sérgio Motti Trombelli é professor universitário e palestrante kardecista cristão.

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