
A frase “A revolução, como Saturno, devora seus próprios filhos” é frequentemente atribuída ao jornalista e político francês Jacques Mallet du Pan (1749-1800), em um ensaio escrito em 1793, durante a Revolução Francesa. Embora a frase original foque na “revolução”, ela é comumente adaptada para a “guerra” e outros contextos de violência autodestrutiva.
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Justamente o que testemunhamos hoje, neste globo chamado Terra, é a repetição incessante da fome dos seres mitológicos — hoje personificada na guerra. Ela devora multidões em confrontos intermináveis, carentes de qualquer justificativa racional. A matança perdura na mente desequilibrada de líderes desprovidos de piedade e bom senso, que jamais saciam sua sede de poder.
Os registros das guerras mais veiculadas pela imprensa são estarrecedores: na Ucrânia, estima- se 1,4 milhão de mortos; na Palestina, cerca de 80 mil; e o conflito mais recente já ceifou aproximadamente 3 mil vidas. O número de óbitos cresce sem interrupção, conforme ditam os noticiários.
Certamente, a mitologia perderia esta contenda. A fome devastadora deste “monstrengo” atinge a todos: os que desejam a guerra e os que a abominam; os implicados e os inocentes.
Líderes belicosos convocam soldados que, em nome da “honra da pátria” são arrastados compulsoriamente à carnificina.
A guerra devora tijolos, estradas, residências, hospitais e um número infinito de idosos e crianças. Enquanto o ferro esmaga a carne humana, os campos arados e as florestas sucumbem à insensatez.
Ficam sempre no ar as perguntas nunca respondidas: Para quê? Para quem? Por quê? Nenhuma guerra se contenta em destruir apenas no momento do embate; ela se prolonga, ceifando vidas de mutilados e famintos que ela própria criou. Sua desgraça é um investimento de longo prazo.
Estes conflitos representam a perversidade humana elevada às últimas consequências: famílias dizimadas, miséria, doenças, pais sem filhos, filhos sem pais. A desolação e o ódio se acumulam, arquitetando vinganças que parecem não ter fim.
Tudo isso em nome de uma glória fútil, do extermínio ou de interesses econômicos. São vitórias pífias, pois poderosos lutam contra impotentes. Que brilho covarde há em vencer quem já estava vencido?
A história mostra que impérios em seus estertores buscam desesperadamente se agarrar a algo para não cair.
Geralmente, lançam-se à guerra por pura vaidade, tentando manter uma hegemonia que já se esvai. Isso significa que os impérios matam tanto para se estabelecer quanto para não deixar de dominar.
Hoje, a disposição para guerrear é facilitada pela sofisticação tecnológica. O que mudou, também, é que os líderes agora se acomodam confortavelmente em bunkers, protegidos com suas famílias, enquanto no passado os reis cavalgavam à frente das tropas — como Ricardo Coração de Leão, que morreu em combate.
Nada justifica esta matança, nem mesmo o nome de Deus, como se o Criador pudesse desejar tamanha atrocidade. A guerra não possui verdadeiros soldados, mas assassinos; não possui comandantes, apenas mandatários do horror.
Minha fé no Criador permanece inabalável, mas minha garganta se aperta entre a crença e a decepção com o gênero humano. Por isso, com humildade, rogo: meu Pai, é chegado o momento de mostrar o Vosso poder e a Vossa bondade, intervindo nesta matança sem sentido e sem fim.
Sérgio Motti Trombelli é professor universitário e palestrante kardecista cristão.


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