
“Como será o amanhã? Todo mundo quer saber. Todo mundo corre atrás. Se programar para não sofrer” Na epígrafe acima, os versos cantados por Jefte Santos ecoam como um vaticínio sobre os rumos do Brasil.
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Para as correntes de esquerda, a soberania nacional sempre foi uma cláusula Pétrea, um valor fundamental colocado acima de qualquer outro pragmatismo. No entanto, a condução da nossa atual política externa parece ignorar essa
premissa. O governo brasileiro vem tratando o presidente americano, Donald Trump, com uma familiaridade incompatível com a liturgia diplomática.
Negociar com Trump é sempre um terreno temerário — afinal, foi justamente a agressividade nos negócios que lhe rendeu uma fortuna colossal. Para o presidente Lula, contudo, a complexa relação com Washington parece
se resumir a ironias e piadas que poucos acham graça. Entre menções a “jabuticabas” e “amor à primeira vista”, alimentou-se a ilusão de que essa suposta intimidade blindaria o Brasil de qualquer artimanha da geopolítica
americana, trumpista por excelência.
O erro de cálculo foi crasso. Habituado às antigas negociações sindicais, o ingênuo mandatário brasileiro não previu que o astuto Trump ignoraria os acenos cordiais e delegaria a política para a América Latina a Marco Rubio —
secretário de Estado e notório antipatizante das causas tropicais.
Seria extrema ingenuidade crer que Rubio tomaria decisões dessa magnitude à revelia de seu chefe.
O resultado dessa inércia diplomática foi desastroso: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) foram classificados pelos EUA como organizações terroristas. Essa chancela, conceitualmente equivocada,
coloca a economia e a imagem do Brasil na berlinda global.
O histórico de diálogo historicamente positivo entre Brasília e Washington nos impede de aceitar passivamente uma medida tão intempestiva. Um gesto dessa gravidade, com profundos reflexos futuros, não condiz com o
comportamento de nações aliadas, assemelhando-se mais a uma postura de antagonistas econômicos.
O cenário se agrava quando percebemos os bastidores domésticos dessa crise. Tornou-se evidente que um senador da República teve a ousadia de influenciar o alto escalão do governo americano para carimbar o próprio país
com uma tarja que prejudica a coletividade. Não há como rotular a atitude de Flávio Bolsonaro como patriotismo.
O preço cobrado por essa jogada política é infinitamente maior do que qualquer dividendo eleitoral. Em época de campanha, não é legítimo flertar com o prejuízo da nação em troca de alguns pontos nas pesquisas. Colocar o interesse pessoal e a disputa paroquial acima da soberania extrapola os limites éticos e faz duvidar do real
compromisso do parlamentar com o seu país.
O senador parece não ter alcançado a gravidade de expor o Brasil ao mundo como um território desestabilizado por duas potências terroristas. É preciso deixar claro: tanto o PCC quanto o Comando Vermelho são organizações mafiosas e corporações criminosas que visam ao lucro por meio do tráfico de drogas e da lavagem de dinheiro. Não são células terroristas com fins políticos.
Contudo, o descrédito e a vulnerabilidade do Brasil interessam diretamente aos Estados Unidos. Trata-se de puro oportunismo político e econômico, cujo objetivo final é a submissão de uma nação vizinha a uma potência bélica e
financeira.
Há muito em jogo: as riquezas da Amazônia, as reservas de terras raras e a liderança geopolítica da América do Sul. São peças que se encaixam perfeitamente nas pretensões imperiais de expandir a hegemonia norte- americana sobre todo o continente.
Nesse tabuleiro, a canção popular serve como um severo sinal de alerta para todos nós, e em especial para os governantes em Brasília. A leniência histórica do Estado e uma legislação penal permissiva paralisaram
a segurança pública nacional, abrindo brechas para que potências estrangeiras se julguem no direito de intervir sob o pretexto de proteger o cidadão brasileiro.
Diante dessa evidente falência moral e institucional nos altos escalões da capital, a pergunta que encerra a canção nunca foi tão urgente e incerta: afinal, como será o amanhã?
Sérgio Motti Trombelli é professor universitário e palestrante kardecista cristão


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