Coluna: Assim não dá

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Coluna: Assim não dá

Recentemente, chamou-me a atenção um vídeo em uma plataforma digital no qual um consumidor, munido de uma fita métrica, desenrolava um rolo de papel higiênico. O rótulo prometia 40 metros; na realidade, mal ultrapassava os 30.

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Infelizmente, esse não é um caso isolado de desconformidade. Notícias recentes revelam que até o nosso paladar é enganado: chocolates que, por falta de sólidos de cacau, não poderiam sequer ostentar tal nome, são vendidos livremente nas prateleiras.

Essa cultura do “menos por mais” se espalha como uma mancha de óleo. São postos de gasolina multados por bombas adulteradas, onde o consumidor paga por 20 litros e recebe apenas 17; são restaurantes que sacrificam a qualidade da “mozzarella” e da calabresa em prol de uma margem de lucro artificial; são oficinas que substituem peças desnecessariamente.

É um modo de agir que impregna o cotidiano, criando um vício social onde a vantagem indevida parece ser o objetivo final de diversas atividades.

Durante muito tempo, refletimos sobre o ditado: “a ocasião faz o ladrão”. Se isso fosse verdade, ainda haveria uma réstia de esperança, pois a ausência da oportunidade preservaria a integridade.

Contudo, o que testemunhamos hoje é uma inversão perversa: a má-fé agora fabrica a ocasião para, então, instalar o estratagema. A criatividade brasileira, que deveria ser um ativo para a inovação, é frequentemente sequestrada por uma “expertise” voltada a arquitetar ganhos escusos.

O caso envolvendo o grupo Master parece ilustrar esse abismo. Um cenário de fragilidade institucional que abre brechas para o que pode vir a ser um dos maiores desfalques do setor financeiro nacional.

É imperativo ressaltar que existem, sim, industriais, comerciantes, banqueiros e prestadores de serviço éticos e honrados — aos quais presto minha sincera homenagem. No entanto, o volume crescente de investigações e multas indica que a exceção está tentando se tornar regra.

O resultado disso é uma sensação de insegurança sistêmica. Paira no ar a percepção de que, neste Brasil de tantas potencialidades, tudo pode ocultar um golpe ou uma artimanha. Essa imagem projeta ao mundo um país de leis brandas e punições raras, onde o lucro rápido parece sobrepor-se ao valor do trabalho.

Essa mentalidade não poupa a esfera pública. Em níveis federal, estadual e municipal, o noticiário nos bombardeia com o desvio de finalidade dos orçamentos, alimentando a fortuna de quem deveria servir ao povo, e não se servir dele.

Parece que uma cultura nociva de licenciosidade invadiu o imaginário coletivo, sugerindo que o caminho da ilegalidade é pavimentado pela impunidade.

Quando o expediente escuso enriquece mais rápido do que o esforço honesto, a própria educação é desvalorizada. Enquanto uns prosperam sobre o erro, a maioria dos cidadãos de bem patina sobre o próprio suor, sem alcançar o reconhecimento e o sucesso que sua integridade merece.

Não se trata apenas de economia ou política; trata-se de valores. E, do jeito que estamos, realmente não dá!

Sérgio Motti Trombelli é professor universitário e palestrante kardecista cristão.

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