
A semana do esporte nacional teve uma notícia-bomba na última sexta-feira (14/8). E não foi a renovação milionária de Memphis com o Timão, mas a determinação da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) de seguir as regras do Comitê Olímpico Internacional (COI) e da Federação Internacional de Voleibol (FIVB).
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Com a nova regra, as jogadoras terão que apresentar teste genético com resultado negativo para o gene SRY, associado ao desenvolvimento das características sexuais masculinas, o que pode impedir atletas trans de disputar competições femininas da modalidade no Brasil.
Para muitos, uma questão lógica de justiça esportiva. Afinal, uma mulher trans que passou pela puberdade masculina pode apresentar características físicas como maior estatura, força e resistência, consideradas por alguns uma vantagem competitiva sobre as demais atletas.
Pode até ser menos capacitada tecnicamente, mas, na força do ataque, leva vantagem. A questão caiu no colo e nos braços de Tifanny. Desde 2017 atuando entre as mulheres, ela estreou no Sesi Bauru e, desde 2021, está no Osasco. Com 1,94 metro e grande envergadura, destacou-se nas equipes por onde passou, e sua convocação para a Seleção Brasileira chegou a ser cogitada durante algum tempo.
Agora, está em plena competição. A Federação Paulista decidiu não afastá-la imediatamente. Alegou, com muita razão, que o torneio já estava em andamento e que sua retirada representaria prejuízo dobrado ao clube, pois não haveria, no mercado, uma peça disponível para substituí-la.
Ao fim do jogo contra o Pinheiros, vencido por 3 a 2 pelo time da capital paulista, Tifanny desabafou. Disse que iria lutar contra a decisão e buscar seus direitos. Apoiada pelas companheiras, afirmou: “Vai ter Trans sim. E terá trans campeã”. Repercutiu. E muito.
Militantes, esportistas, políticos, jornalistas e influenciadores teceram diversos comentários sobre o caso. Cada um dentro de sua convicção. Como colunista e militante do vôlei feminino — coordeno uma equipe que também disputa o Paulista Adulto — não posso me omitir, como, pasmem, 99% das atletas da modalidade fizeram. Houve muito mais homens comentando do que mulheres, as principais interessadas.
Para mim, fez-se justiça. Não se trata de orientação sexual ou de escolha pessoal, mas de esporte e de competitividade. A discussão precisa considerar as características físicas que podem influenciar o desempenho em cada modalidade.
No masculino, questões de comportamento e desempenho também ganharam enorme repercussão recentemente. Os maus resultados dentro da quadra acabaram ampliando a exposição de situações ocorridas fora dela, como no episódio do “relaxa” durante um tempo de Bernardinho. O Brasil teve seu pior desempenho histórico na Liga das Nações, e tudo isso virou assunto.
No feminino, a discussão é ainda mais delicada. Existem atletas com diferentes orientações sexuais e identidades, e isso não deveria determinar a forma como são tratadas dentro ou fora das quadras. Conhecemos pessoas de diferentes perfis e nem por isso devemos destratá-las, ignorá-las ou praticar qualquer forma de preconceito.
O ponto, para mim, é outro: os critérios para participação em uma competição precisam ser claros, objetivos e aplicados de maneira uniforme. No caso de Tifanny, a discussão é sobre a participação na categoria feminina e os critérios estabelecidos pelas entidades esportivas.
Sugiro que ela busque seus direitos dentro das regras estabelecidas para o esporte. Certamente continuará atraindo atenção e, se mantiver o alto nível, poderá também despertar o interesse de patrocinadores.
Para terminar, deixo uma questão a você, leitor da Golaço, que não vi ou ouvi em outros lugares: por que, em tantos times femininos, a presença de atletas trans é tão rara? É apenas uma questão de oportunidade, de regras ou existem outros fatores envolvidos?
Boa sorte a Tifanny. Que toda essa repercussão possa ser utilizada a seu favor e que o debate avance sem preconceito, mas também sem deixar de discutir os critérios esportivos. Para mim, a decisão é uma questão de justiça esportiva. Doa a uma só ou a várias.
Guilherme Novaes é jornalista, comentarista e colunista esportivo.


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