
Foi durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso que a reeleição para cargos do Poder Executivo foi institucionalizada no Brasil. Através da Emenda Constitucional nº 16, promulgada em 4 de junho de 1997, abriu-se a
possibilidade de mandatos consecutivos para presidentes, governadores e prefeitos.
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Desde então, a dinâmica política nacional sofreu uma mutação profunda: o espírito público deu lugar ao cálculo eleitoral permanente. A partir desse marco, o detentor do cargo executivo muitas vezes passa a governar sob a
hipnose da continuidade. O planejamento de obras e a execução de políticas públicas perdem sua finalidade social primária para se tornarem peças de marketing.
Vivemos no Brasil um “modo eleição” ininterrupto, onde a escolha do que fazer não é pautada pela necessidade da população, mas pelo potencial de votos que cada ação pode angariar no pleito seguinte.
Neste ano de 2026, o cenário de paralisia é evidente. O foco no futuro eleitoral sacrifica o presente. No Legislativo, as votações tornam-se moedas de troca para agradar categorias específicas, enquanto a distribuição de recursos federais privilegia colégios eleitorais estratégicos em detrimento das carências regionais.
As decisões administrativas são precedidas por pesquisas de opinião, e não por diagnósticos técnicos de viabilidade e bem-estar social.
Neste tabuleiro de interesses, a saúde pública é a peça que mais sofre. Enquanto a medicina privada avança a passos largos com tecnologias de diagnóstico e fármacos de alto custo — acessíveis apenas a uma elite financeira —, a máquina do SUS estagna em um estágio lamentável de evolução.
O preço dessa ineficiência é amargo e contabilizado em vidas perdidas nas filas de espera por exames e consultas especializadas.
O atual governo federal, em vez de priorizar o aporte de verbas e a estruturação do setor, especializou-se na retórica das promessas. Um exemplo claro é a abertura indiscriminada de faculdades de medicina para atender a pressões políticas locais.
O objetivo é puramente simbólico: ostentar um número elevado de médicos por habitante para fins estatísticos e ufanistas.
Contudo, a realidade desmente os números. Sem projetos estruturados que fixem esses profissionais nos “rincões” e periferias do país, os médicos concentram-se nos centros populosos. O vazio assistencial permanece, as pesquisas mostram um país que “tem muitos médicos”, mas o mundo não vê a causa mortis de milhares de brasileiros vitimados pelo descaso.
Neste Brasil de contrastes, a classe política parece ignorar que seu maior ativo — e sua maior responsabilidade — é a gente brasileira.
Sérgio Motti Trombelli é professor universitário e palestrante kardecista cristão.


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